sábado, 15 de janeiro de 2011

Controle

Eu não sei se são capazes de entender o que é não estar no controle.
Não ter controle do corpo, não ter controle da saúde, do pensamento, não ter controle da vida.
Eu não sei se não entendem, ou se simplesmente desconhecem o que é não ter poder algum, o que é estar a margem do que se sonha.
Eu não sei se não entendem, ou se misturam as coisas, o amor, o cuidado, todos os problemas que passamos.
Eu não ligo que não entendam, só espero que ainda vejam, por baixo da pele pálida e doente, dos cigarros e vícios, a pessoa que sou.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Jogo

Naquela noite, pela terceira vez na semana, eu sonhei com aquela garota.
Ela não aparentava ser mais velha do que eu, na verdade, se parecia muito comigo. Roupas pretas, olhos profundos e claros, os cabelos - castanhos como os meus - caiam-lhe sobre o pescoço, onde se encontrava meu pingente. Uma libélula que havia ganhado de Charlie.
"Talvez ela seja apenas meu reflexo", penso enquando procuro em mim, sem sucesso, o pingente. Nesse momento o silencio dos sonhos ainda me iludia.
_ Uma vez, há muito tempo, eu também acordei de um sonho longo. Isso foi quando o primeio homem nasceu! Vamos Amelie, é sua vez.
Olhei para uma mesa que havia sido disposta entre nós. Um tabuleiro de xadrez, e um jogo que já havia começado.
Foi então que eu me dei conta de qu havia, de fato, algo com o que me preocupar. Algo estava em jogo, algo de valor imenso. Eu movia as peças com obstinação, tentando não transparecer meu medo, ou as tentativas de lembrar cada fundamento, truque ou estratégia desse jogo. Em alguns momentos estive confiante da vitoria, mas não demorou muito para ouvir, pela terceira vez na semana, o "xeque-mate".
Ela me dirigiu a palavra com uma voz sombria, falava sobre chances e contratos, enquanto eu tratava de tombar meu rei, uma vez mais. A diferença nessa vez foi que eu não pedi mais uma chance, eu apenas aceitei, calada, a derrota.
No dia seguinte, a noticia. Um avião caiu.

domingo, 31 de outubro de 2010

Jogo de Amor


Você não precisou dizer nada, apenas bebeu e riu. Sorriu comigo, meu amigo, meu amor. Não me pediu que falasse seu nome, mas sei que me buscava as palavras, e como sempre, apenas disse que vou lembrar de você e me sentir assim, tão bem, sempre. Mas hoje isso não importa, simplesmente porque hoje é diferente.

Hoje não importa mais nada, não importa ninguém. Beba comigo, e nada será dito. Hoje ninguém vai julgar o nosso jogo de amor. ;)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Devaneios Femininos


"I am a human and I need to be loved
Just like everybody else does"
- The Smiths - How Soon is Now?

Hoje eu já não sei mais que mulher eu iria gostar que você visse em mim, se seria a sombra por quem outrora você se apaixonou ou essa mulher de hoje que você poderia aprender a amar.
Faz tanto tempo que não te pertenço mais, que as vezes acho que já esqueci o que é ter-me em seus braços, o que é pensar em meus lábios, meu corpo inteiro, como seus. Faz tanto tempo já. E eu ainda tenho medo de ter esquecido de tudo. Todas as tardes que ficamos olhando o céu como dois idiotas que éramos, todos os sorrisos embaraçados das manhãs juntos. Pois não é isso o amor? Sorrir em silencio e imaginar todo o nosso mundo como idiotas? Não é sentir um corpo alheio que vem e se entrega pela vontade da posse? Se não, o que seria, amor?
Sinto falta desse amor que me tirava o ar, que me fazia ficar, por meses, estática, sorrindo sozinha pelas manhãs, olhando o céu como idiota e assoprar dentes-de-leão com o único desejo de que onde quer que estivesse, estivesse olhando o céu comigo. Unindo-nos, assim, na visão, e não mais tão distantes, não mais tão saudosos. Não seria isso o amor?
Não seria amor aquela vontade insaciável de escutar sua voz, ou sentir seus dedos em meus cabelos? Não seria amor sonhar com você e sorrir sozinha, pela manhã, da mesma maneira que sorriria para você? Não seria amor se agora te visse e te tivesse com a mesma alegria e satisfação de outrora?
Se não for nada disso, não sei e não saberei o que é o amor. Mas tenho certeza que sempre estarei procurando-o. Onde estiver, estarei um passo atrás, mas sempre pronta para, por uma vão momento, sentir seu sabor.

E que o amor nunca seja uma coisa apenas, mas sim uma síndrome de todos os prazeres e pesares.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Delirium


Ela cheira a suor, vinho azedo,
noites tardias e couro velho.

Sua aparência, um amontoado de
idéias vestidas no semblante da carne,
é a mais variável de todos os Perpétuos.
A forma e o contorno de sua sombra
não têm relação com a de nenhum
corpo que esteja usando.
Ela é tangível como veludo gasto.
Delírio tende a se tornar borboletas
ou peixes dourados, agora e sempre.
Um dia, Delírio também foi Deleite.
E, embora isso tenha sido há muito
tempo, ainda hoje seus olhos têm
matizes diferentes: um é verde-esmeralda
bem vivo, salpicado de pontos prateados;
o outro é do mesmo azul que esconde
sangue dentro de veias mortais. Ela vê
o mundo de seu própria e única visão.

Os Perpétuos acreditam que apenas
Delírio sabe porquê ela mudou.

- Neil Gaiman

domingo, 19 de setembro de 2010

Dias

Tem dia que a gente pensa em largar tudo e ir... Tem dia que é foda...

São esses dias que a gente percebe que o que parece muito certo já não possui mais tantos motivos para ser... O que antes me parecia tão claro e belo, já não é o que eu mais desejo. Tudo parece ter mudado nesse dia, me sinto estranha, deslocada, e não sei para onde devo olhar ou ir. Já não ouço mais as vozes que antes me guiavam por essa terra, tão árida de sentidos. Porque todos se mantem tão alheios à tudo isso
? Sinto falta dos sentidos. Será que sou a única? A única pessoa que é completamente obcecada pelos motivos, pelas ações... Ninguém liga mais para as respostas, ninguém mais liga sequer para as perguntas. E mesmo assim todos vivem bem. Será que sou a única miserável nesse mundo pobre? Talvez eles saibam as respostas, talvez sejam todos sábios, sábios em sua própria ignorância.

Tem dia que é foda, e eles nem percebem!

Nostalgias


Era uma calma segunda-feira. Tão calma quanto todas as segundas feiras dessa terra estrangeira.

Estava sozinha, no mesmo restaurante de todas as segundas-feiras. Lotado, como de costume sentou-se com completos estranhos e pôs-se a escutar o que suas desconhecidas companheiras diziam.
Surpreendeu-se! Estava escutando relatos de um viagem, uma prazerosa viagem a sua terra natal. Escutava a mulher descrever Madrid. Escutava-a dizendo que aquela cidade, de onde ela sentia tanta falta, era seu novo amor. Ouvia a tola narrativa e resgatava na memória os sons, a arte,, as luzes e as cores da cidade que há pouco pensava ter perdido. Madrid. Passara tanto tempo sentindo sua falta e agora estava novamente ali, naquela descrição.
A música, aquela tão animada Madrid. Sem essas solitárias segundas-feiras. Os sons, os amores, tudo de repente voltava pra o mesmo lugar, tudo voltava para ela.
Ficou calada, tinha medo de que o menor ruído espantasse a narradora e o momento se esvaísse. Ficou calada, imóvel, estava novamente em Madrid. Sentia seu cheiro, ouvia sua música e até comia sentindo os gostos daquelas deliciosas receitas da mãe.
Quis agradecer à mulher, que minutos depois foi embora, mas não pode. Ficou ali, inerte, buscando em si sua Madrid, e todos os momentos que viam junto. E quando achou, sorriu e chorou à felicidade do grande encontro.